A batalha pela custódia de dados: Open Insurance acirra a guerra contra o churn nas grandes seguradoras
Com a consolidação da interoperabilidade exigida pela SUSEP, o consumidor final conquista a portabilidade do seu histórico de risco. Enquanto insurtechs usam dados abertos para dinamitar preços, seguradoras tradicionais correm contra o tempo para modernizar sistemas legados e conter a evasão de carteiras.

Imagine construir, ao longo de dez ou quinze anos, um histórico impecável como segurado: zero sinistros, garagem coberta, condução defensiva e bônus acumulados ano a ano. No modelo tradicional de seguros, essa reputação ficava "refém" da seguradora de origem, exigindo trâmites burocráticos e transferência de classes de bônus que nem sempre refletiam o real valor do cliente para o mercado.
Com a consolidação da fase final do Open Insurance no Brasil, regulamentada e fiscalizada pela Superintendência de Seguros Privados (SUSEP), esse cenário ruiu. A plena interoperabilidade de dados e a integração gradual ao ecossistema do Open Finance transformaram o histórico do consumidor em um ativo de sua propriedade. Hoje, a migração do perfil e da carteira de seguros ocorre com a mesma fluidez com que um usuário altera sua playlist em uma plataforma de streaming.
Essa liberdade sem precedentes para o consumidor abriu um campo de batalha feroz no setor financeiro: de um lado, insurtechs e Sociedades Iniciadoras de Serviço de Seguro (SISS) munidas de algoritmos em tempo real; do outro, grandes seguradoras tradicionais lutando para reter suas bases mais valiosas.
O ataque das insurtechs: precificação preditiva e hiperpersonalização
As startups do setor de seguros e as plataformas nativas digitais foram as primeiras a capturar o potencial estratégico das APIs (Interfaces de Programação de Aplicações) abertas do Open Insurance. Com o consentimento expresso do usuário, essas empresas acessam instantaneamente dados detalhados sobre apólices anteriores, histórico de coberturas, sinistralidade e perfil de pagamento.
A grande vantagem competitiva do modelo digital não está apenas em cotar mais rápido, mas em precificar melhor.
"Quando o dado deixa de ser proprietário da seguradora e passa a pertencer ao cliente, a assimetria de informação que protegia as grandes carteiras desaparece. A insurtech consegue enxergar o risco exato daquele indivíduo e oferecer um desconto agressivo no exato segundo em que ele consulta o aplicativo", explicam analistas de tecnologia financeira do setor.
Com modelos de Machine Learning e inteligência artificial alimentados via Open Data, as plataformas conseguem estruturar propostas sob medida — eliminando coberturas obsoletas e aplicando tarifas dinâmicas baseadas na rotina real do motorista ou proprietário. O resultado é uma taxa de conversão elevada e uma capacidade sem precedentes de atração de novos clientes.
O gargalo das gigantes: o desafio dos sistemas legados
Para as seguradoras centenárias e consolidadas no mercado brasileiro, o avanço do Open Insurance impôs uma encruzilhada operacional. Embora detenham vastas carteiras de clientes e marcas altamente confiáveis, muitas dessas corporações ainda operam sobre infraestruturas de TI legadas — sistemas antigos, monolíticos e de difícil integração em tempo real.
Enquanto uma insurtech consegue processar o consentimento de dados e responder com uma oferta ajustada em milissegundos via API, uma seguradora tradicional pode enfrentar gargalos no processamento interno de dados ou na validação de risco.
Essa diferença de agilidade reflete-se diretamente no índice de churn (taxa de cancelamento e migração de clientes). Perder o momento da renovação ou falhar em apresentar uma contraproposta competitiva antes do concorrente significa ver o cliente migrar com poucos cliques na tela do smartphone.
Para responder à ameaça, as grandes seguradoras estão promovendo investimentos bilionários no core banking e em sistemas de subscrição de risco:
Desmontagem de silos de dados: Unificação das bases de dados internas de Auto, Vida, Residencial e Empresarial para enxergar o cliente de forma holística.
Automação de retenção preditiva: Uso de IA para identificar sinais de insatisfação ou padrões de pesquisa de preço antes mesmo do término da apólice.
Conexão nativa com Open Finance: Oferta de produtos integrados a contas bancárias e carteiras digitais, antecipando-se aos agregadores de terceiros.
O futuro da custódia de dados e a fidelidade no novo ecossistema
A batalha pela custódia de dados no Open Insurance demonstra que a fidelidade do cliente no mercado segurador moderno não pode mais ser imposta pela inércia burocrática ou pela falta de opções.
Em um ambiente de concorrência aberta, a retenção de carteiras dependerá da capacidade de entregar valor contínuo e experiência sem atrito. As seguradoras tradicionais que conseguirem modernizar seus motores tecnológicos e aliar sua reputação à agilidade digital manterão a liderança. Por outro lado, aquelas que demorarem a adaptar suas infraestruturas verão suas margens comprimidas e suas bases gradualmente fatiadas pela nova geração de distribuidores de seguros. Fontes de Consulta
Superintendência de Seguros Privados (SUSEP) — Diretrizes da Regulamentação do Open Insurance Brasil e Resoluções de Interoperabilidade.
Estrutura de Governança do Open Insurance Brasil (OPIN Brasil) — Relatórios de Evolução das APIs e Governança do Ecossistema.
Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) — Estudos de Impacto e Inovação na Indústria Seguradora.
FGV IBRE / RBRS — Open Insurance: O Novo Ecossistema para Transformação Digital da Indústria de Seguros.




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