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Operação Wi-Fi: ONG de Produtora de Filme sobre Bolsonaro é Alvo por Suspeita de Desvios Milionários

  • 1 de jun.
  • 3 min de leitura

A Polícia Civil de São Paulo deflagrou a "Operação Wi-Fi", uma ação que coloca sob forte escrutínio o Instituto Conhecer Brasil (ICB). A organização não governamental é presidida pela empresária Karina Ferreira da Gama, que também é proprietária da GoUp Entertainment, a produtora responsável pelo filme “Dark Horse” — uma obra cinematográfica focada na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.


A suspeita central que guia os investigadores é a de que recursos de um contrato milionário voltado para a inclusão digital nas periferias paulistanas tenham sido desviados de forma sistemática para custear a produção do longa-metragem, configurando uma severa confusão patrimonial e lesão aos cofres públicos.


O Contrato de R$ 157 Milhões sob Suspeita

O epicentro do escândalo repousa no contrato firmado entre o Instituto Conhecer Brasil e a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) da Prefeitura de São Paulo. O acordo original previa o repasse de R$ 108 milhões para a instalação e manutenção de 5 mil pontos de internet pública gratuita em comunidades carentes. Contudo, aditivos contratuais posteriores elevaram o montante global para R$ 157,1 milhões.


Os investigadores apontam duas frentes principais de irregularidade no certame:

  • Falta de Capacidade Técnica: O ICB não possuía histórico de atuação, experiência anterior ou corpo técnico no setor de telecomunicações. Seu histórico operacional limitava-se à organização de feiras de livros e eventos de natureza literária ou religiosa.

  • Superfaturamento Drástico: A discrepância econômica identificada pela equipe técnica da investigação aponta indícios contundentes de sobrepreço quando comparado aos serviços historicamente prestados por empresas estatais.


A Discrepância nos Valores e Serviços "Fantasmas"

Ao analisar os custos operacionais da parceria, a auditoria constatou margens que indicam um forte prejuízo ao erário. O comparativo com a Prodam (empresa de processamento de dados do município) revela a dimensão dos valores praticados:

Indicador de Custo

Modelo Prodam (Referência)

Contrato Instituto Conhecer Brasil (ICB)

Implantação por Ponto

R$ 230

R$ 1.800

Manutenção Mensal por Ponto

R$ 306

R$ 1.800

Além do sobrepreço por unidade, a polícia identificou o pagamento de pelo menos R$ 26 milhões por serviços não prestados. Em um lote específico onde a ONG declarou ter entregue 3,2 mil pontos de Wi-Fi ativos na periferia, vistorias técnicas constataram que apenas seis pontos estavam de fato funcionando no período faturado.


O Elo com o Filme "Dark Horse" e as Emendas Parlamentares

A investigação avança sobre o caminho do dinheiro (money trail) para comprovar se os repasses da prefeitura irrigaram diretamente as contas da produtora GoUp Entertainment. O filme de orçamento estimado em mais de R$ 120 milhões (aproximadamente 23 milhões de dólares) conta com o envolvimento direto de figuras políticas de relevância nacional.

"Há consistentes suspeitas de confusão patrimonial entre o instituto e a produtora, indicando que recursos públicos do programa 'Wi-Fi Livre SP' tenham sido desviados para custear as atividades de produção do referido filme", destacou a autoridade policial em ofício encaminhado à Justiça.

Paralelamente, a operação se desdobra no Supremo Tribunal Federal (STF). O ministro Flávio Dino determinou a abertura de uma apuração preliminar sigilosa sobre o repasse de emendas parlamentares para o mesmo ecossistema de entidades controladas por Karina Gama. O deputado federal Mário Frias (PL-SP), que assina o roteiro de Dark Horse e atua como seu produtor executivo, destinou R$ 2 milhões em emendas de sua autoria para o ICB, levantando suspeitas adicionais de desvio de finalidade por parte de parlamentares.


O Outro Lado

Em nota oficial, a Prefeitura de São Paulo informou que a produção do filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro não recebeu recursos municipais e classificou qualquer associação entre o contrato de conectividade e a produção cinematográfica como descabida. A gestão municipal reiterou que o contrato com o ICB foi assinado em junho de 2024, período anterior ao início oficial das tratativas de filmagem da película.

O Instituto Conhecer Brasil defendeu-se publicamente argumentando que todas as suas ações seguem rigorosamente os termos contratuais, a legislação vigente e as diretrizes dos órgãos de controle, assegurando que cada recurso recebido possui destinação específica e vinculada exclusivamente ao objeto aprovado.


Fontes de Consulta

  • Polícia Civil do Estado de São Paulo – Autos do inquérito da 1ª Vara Regional das Garantias da Capital.

  • Tribunal de Contas do Município (TCM-SP) – Relatório de auditoria e conformidade nos contratos da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT).

  • Supremo Tribunal Federal (STF) – Despacho de abertura de apuração preliminar sob a relatoria do ministro Flávio Dino.

  • The Intercept Brasil – Investigação jornalística sobre o ecossistema financeiro e os contratos da produtora GoUp Entertainment.

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