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As conexões de Daniel Vorcaro e do Banco Master na política e na Justiça

Polícia Federal realizou nesta quarta-feira (14) novas buscas e apreensões em uma segunda fase da operação sobre o Banco Master.

Ciro Nogueira (PP) é tido, segundo notícias da imprensa, como uma espécie de ponte entre Vorcaro e o mundo político brasileiro — Foto: Getty Images via BBC.
Ciro Nogueira (PP) é tido, segundo notícias da imprensa, como uma espécie de ponte entre Vorcaro e o mundo político brasileiro — Foto: Getty Images via BBC.

O BRB também é alvo da Operação Compliance Zero da Polícia Federal. As autoridades investigam a suposta venda de falsas carteiras de crédito consignado do Master ao BRB por R$ 12 bilhões — um negócio que ajudaria o Master a melhorar sua posição financeira antes de ser vendido.


O ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, foi intimado a depor.


Em novembro, Ibaneis disse ao jornal O Globo que esteve com Vorcaro "uma ou duas vezes em eventos sociais, mas nunca para tratar de banco".


No passado, Ciro Nogueira chegou a propor elevar o limite da cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF. A garantia do FGC a investidores foi um dos fatores que ajudou o Banco Master a se expandir nos últimos anos.


Ricardo Lewandowski e Guido Mantega: Lewandowski, que é ex-ministro do Supremo Tribunal Federal e ex-ministro da Justiça e Segurança Pública do governo Lula — tendo deixado o cargo na semana passada —, já teve o Banco Master entre seus clientes no intervalo entre deixar o STF e entrar para o governo, segundo o jornal Folha de S. Paulo.


Ricardo Lewandowski teve Master entre seus clientes, segundo jornal Folha de S. Paulo — Foto: Getty Images via BBC

Ricardo Lewandowski teve Master entre seus clientes, segundo jornal Folha de S. Paulo — Foto: Getty Images via BBC


Já Guido Mantega, que é ex-ministro da Fazenda de Lula no seu segundo mandato, também teria sido contratado como consultor e levado Vorcaro a conhecer pessoalmente o presidente, segundo o jornal Estado de S. Paulo.


Henrique Meirelles e Michel Temer: O ex-presidente do Banco Central durante o primeiro governo Lula e ex-ministro da Fazenda de Temer, Henrique Meirelles, integrou um comitê consultivo do Banco Master, ao lado de nomes como Gustavo Loyola, que também comandou a autoridade monetária.


Meirelles teria assumido a posição de conselheiro substituindo Lewandowski, quando o ex-ministro do STF foi para a pasta da Justiça, segundo o noticiário econômico da época.


O ex-presidente da República Michel Temer (MDB), que é advogado de formação, também esteve na folha de pagamentos do Banco Master.


Em setembro de 2025, Temer foi contratado como mediador para tentar destravar a negociação de venda do banco para o BRB, após o BC barrar o acordo original.


"Me chamaram duas semanas atrás a Brasília, quando ainda se achavam interessados na formalização da transação [com o BRB]. Estava também o Daniel Vorcaro, e o Ibaneis [Rocha, governador do DF] disse que queria que eu fizesse uma mediação", contou Temer no programa Roda Viva, da TV Cultura, em 15 de setembro.


Meirelles foi conselheiro e Temer atuou como advogado para o Master — Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil via BBC

Meirelles foi conselheiro e Temer atuou como advogado para o Master — Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil via BBC


Doações a políticos: Doações eleitorais também revelam possíveis conexões políticas envolvendo o Banco Master.


O empresário Fabiano Campos Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro e um dos alvos da operação desta quarta-feira (14/1), foi o maior doador pessoa física das campanhas de Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e Jair Bolsonaro (PL) em 2022.


Casado com Natália Vorcaro Zettel, irmã do banqueiro, ele transferiu R$ 3 milhões para a campanha presidencial de Bolsonaro e R$ 2 milhões para a do governador de São Paulo.


Zettel é fundador e CEO da Moriah Asset, um fundo de private equity — modalidade de investimento que compra participações em empresas que não estão na bolsa. Por meio da Moriah, ele é sócio de marcas como Oakberry, Les Cinq, Frutaria São Paulo e Empório Frutaria.



Em 2022, ele foi o sexto maior doador pessoa física do país. Pela legislação eleitoral, indivíduos podem doar até 10% da renda bruta do ano anterior à eleição.


A assessoria de imprensa de Tarcísio afirmou que sua campanha contou com mais de 600 doadores e que o governador não possui qualquer vínculo ou relação com Zettel.


"Vale destacar que a prestação de contas de Tarcísio foi devidamente aprovada pela justiça eleitoral", diz a nota enviada à BBC News Brasil. Já Bolsonaro não respondeu aos questionamentos da reportagem à época.


Conexões jurídicas

Viviane Barsi de Moraes: A Polícia Federal (PF) encontrou no celular de Vorcaro um contrato de R$ 129 milhões firmado com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes.


O valor também foi revelado pelo jornal O Globo. O documento, localizado na Operação Compliance Zero em 18 de novembro do ano passado, previa pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões ao escritório por três anos a partir de 2024.


O contrato, ainda segundo o jornal, não especificava processos ou causas determinadas. Estabelecia uma atuação ampla, determinando que o escritório representaria o banco "onde fosse necessário".


Embora o Master tenha sido liquidado e o acordo não tenha sido executado até o fim, mensagens trocadas entre executivos indicavam que o pagamento ao escritório era tratado internamente como prioridade, afirma a reportagem.


Além de Viviane, os filhos do casal, também integrantes da banca, aparecem em ao menos um processo ligado a Vorcaro.


A colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, noticiou que o ministro Alexandre de Moraes teria procurado o presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, pelo menos quatro vezes para fazer pressão a favor do Banco Master.


Segundo a colunista, ao menos três contatos foram por telefone e um foi presencial para tratar de problemas do banco de Daniel Vorcaro.


Escritório da esposa de Moraes tinha contrato com Banco Master — Foto: AFP via BBC

Escritório da esposa de Moraes tinha contrato com Banco Master — Foto: AFP via BBC


Em nota, a assessoria do STF afirmou que Moraes teve duas reuniões com o presidente do BC para tratar dos efeitos da Lei Magnitsky — '"a primeira no dia 14/08, após a primeira aplicação da lei, em 30/07; e a segunda no dia 30/09, após a referida lei ter sido aplicada em sua esposa, no dia 22/09. Em nenhuma das reuniões foi tratado qualquer assunto ou realizada qualquer pressão referente a aquisição do Master pelo BRB".


A Magnitsky é uma lei americana que pune estrangeiros que considera autores de graves violações de direitos humanos e práticas de corrupção. Moraes foi sancionado pela lei no fim de julho, e sua esposa, em setembro — em meio a críticas do governo de Donald Trump a ações contra o ex-presidente Jair Bolsonaro na Justiça brasileira, muitas delas relatadas por Moraes.


Mas, no início de dezembro, o governo Trump retirou Moraes e a esposa da lista dos sancionados pela Magnitsky.


De acordo com a nota, Moraes não esteve no Banco Central e não ligou para Galípolo para tratar do assunto.


"Por fim, esclarece que o escritório de advocacia de sua esposa jamais atuou na operação de aquisição Master-BRB perante o Banco Central", conclui a nota do STF.


O Banco Central também emitiu uma nota para confirmar que reuniões com Moraes foram feitas para tratar dos efeitos da sanção aplicada pelos Estados Unidos.


Augusto de Arruda Botelho: O advogado foi Secretário Nacional de Justiça do governo Lula entre 2022 e 2024. A indicação ao cargo foi feita por Flavio Dino, ex-ministro da Justiça de Lula e hoje ministro do STF.


Ao deixar o governo, Botelho voltou a advogar, com um dos diretores do Banco Master entre seus clientes.


No dia 29 de novembro, Botelho esteve em um jatinho particular do empresário Luiz Oswaldo Pastore com o ministro do STF Dias Toffoli em viagem para assistir à final da Libertadores entre Flamengo e Palmeiras, em Lima, no Peru.


Dias Toffoli viajou em avião particular junto com advogado do Banco Master — Foto: AFP via BBC

Dias Toffoli viajou em avião particular junto com advogado do Banco Master — Foto: AFP via BBC


Na véspera da viagem, Toffoli havia sido sorteado para relatar um recurso apresentado pela defesa de Daniel Vorcaro no STF.


O ministro confirmou que viajou no avião e afirmou a interlocutores, segundo o jornal O Globo, que não discutiu o processo durante o trajeto.


Em 3 de dezembro, Toffoli colocou o caso do Banco Master sob sigilo e decidiu transferir o inquérito para o STF, sob sua própria relatoria, atendendo ao pedido de um diretor do Master — o mesmo pleito feito anteriormente pelos advogados de Vorcaro.


Ele acolheu a solicitação com base na citação de um deputado federal, autoridade com prerrogativa de foro privilegiado.


O ministro justificou o sigilo afirmando que o inquérito envolve informações econômicas sensíveis, com potencial impacto no mercado financeiro. Na prática, todas as decisões futuras sobre a investigação passaram a ser tomadas por ele, e não mais pela Justiça Federal em Brasília.


Quem é Daniel Vorcaro?

Natural de Belo Horizonte, o banqueiro de 42 anos vem de uma família de classe média alta do setor da construção civil.


No final da década passada, ele assumiu o controle do banco Maxima — que havia sido fundado nos anos 1970 — e rebatizou a instituição como Banco Master.


Vorcaro chamou atenção na Faria Lima — a região de São Paulo que concentra o mercado financeiro brasileiro — por uma estratégia de negócios considerada ousada: ao invés de captar a maior parte de seu dinheiro com correntistas e emprestando dinheiro, o Banco Master se concentrou em oferecer CDBs com taxas de juros muito acima das praticadas no mercado.


Ao longo de sua trajetória econômica, Vorcaro estabeleceu ligações com políticos da direita e da esquerda brasileira.


Em entrevista à revista Piauí, em outubro do ano passado, Vorcaro atacou os críticos de seu modelo, e disse ser vítima de preconceito por suas origens empresariais serem fora do mercado financeiro.


"Isso acontece por eu ser um outsider. E não é só preconceito. São pessoas que querem nos frear e ficam usando coisas ruins contra nós. É um ataque desnecessário."


Vorcaro também ficou famoso por grandes gastos e por ostentar uma vida de luxo.


Em 2003, junto com outros sócios, ele comprou o hotel de luxo Fasano Itaim — que foi posteriormente vendido.


Também em 2023, segundo notícias da imprensa, ele teria gasto R$ 15 milhões na festa de debutante de sua filha, com apresentação dos DJs The Chainsmokers e Alok. O jornal O Estado de S. Paulo noticiou que Vorcaro adquiriu 27% da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do clube Atlético Mineiro.


A revista Piauí noticiou ainda que no último carnaval, o Banco Master patrocinou um dos camarotes mais caros da Sapucaí, no Rio de Janeiro, com presença de diversas celebridades.


Por Daniel Gallas — Londres

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